A inteligência artificial já entrou na rotina das empresas, mas ainda é comum ver uso raso: testar ferramenta, gerar texto, brincar com automação pontual. Fica nisso.
Para o especialista em IA, Márcio Chleba, o problema está aí. Muitas empresas ainda tratam a inteligência artificial como apoio, quando na verdade ela mexe na forma como o trabalho acontece.
Por isso, ele bate nessa tecla: o ganho não aparece no uso isolado de plataformas como o ChatGPT, mas quando a tecnologia entra no fluxo das tarefas do dia a dia.
“As pessoas pensam na IA como algo que responde perguntas. Mas o ponto central é outro: ela precisa executar tarefas”, diz o especialista.
Da automação à inteligência: o salto de produtividade
Para Chleba, a inteligência artificial deve ser entendida como uma alavanca de produtividade em escala, comparável a marcos históricos como a Revolução Industrial.
A lógica é simples: quanto mais tarefas operacionais forem automatizadas, mais tempo as equipes terão para atividades estratégicas.
“O que vai acontecer é que teremos menos tarefas chatas e mais tempo para pensar. E é isso que vai gerar valor dentro das empresas.”
Na prática, isso significa eliminar atividades repetitivas (como preenchimento manual de contratos, análise básica de dados ou organização de informações) e redirecionar o esforço humano para análise, decisão e inovação.
O novo modelo mental: empresas que pensam com IA
O especialista reforça que o mais importante é a mudança de mentalidade. Segundo ele, empresas que desejam extrair valor da IA precisam adotar um novo modelo mental baseado em processos inteligentes.
Ele propõe uma analogia com o corpo humano:
- Cérebro → modelos de IA
- Memória → dados estruturados (CRM, ERP) e não estruturados (PDFs, documentos)
- Sistema nervoso → integrações entre sistemas
- Sistema motor → agentes de IA que executam tarefas
- Olhos (gatilhos) → eventos que iniciam processos (e-mails, inputs, dados)
Esse modelo ajuda a traduzir a tecnologia em aplicações práticas no dia a dia corporativo.
“A inteligência artificial sozinha não faz nada. Assim como um cérebro sem corpo não funciona, a IA precisa estar conectada aos processos da empresa.”

Casos práticos: onde a IA já gera valor
Chleba trouxe exemplos concretos de aplicação da IA em operações empresariais:
1. Automação de contratos
Processos que antes envolviam troca de e-mails e preenchimento manual passam a ser automatizados por agentes de IA, reduzindo tempo e erros.
2. Análise de dados com BI inteligente
A integração da IA com ferramentas de Business Intelligence permite gerar insights e recomendações automaticamente.
“Em vez de gastar tempo analisando dashboards, o profissional passa a avaliar recomendações e tomar decisões.”
3. Vendas mais estratégicas
A IA pode sugerir produtos, prever comportamento do cliente e até orientar abordagens comerciais com base em dados históricos.
4. Marketing orientado por dados
Ferramentas conseguem analisar conteúdos antigos, identificar padrões de engajamento e sugerir novos temas, algo que é inviável manualmente.
“Pense no que o humano não conseguiria fazer. É aí que está o maior valor da IA”, afirma.
Redução de custos sem necessariamente reduzir equipes
Um ponto importante destacado pelo especialista é que a redução de custos não está diretamente ligada à diminuição de pessoas, mas sim à otimização de recursos.
Entre os ganhos estão:
- Melhor gestão de estoque
- Otimização de campanhas de mídia
- Eficiência logística
- Redução de retrabalho
“O objetivo não é ter menos gente, mas usar melhor o tempo das pessoas.”
O papel humano continua central
Apesar do avanço da tecnologia, Chleba reforça que a IA não substitui o fator humano, especialmente porque seus resultados são probabilísticos.
“A inteligência artificial não é determinística. Ela trabalha com probabilidade. Sempre vai precisar de alguém para validar”, explica.
Isso significa que o profissional passa a atuar como:
- Curador de informações
- Tomador de decisão
- Estrategista

O desafio agora é organizacional, não tecnológico
Para o especialista, o maior obstáculo não está na tecnologia, mas na capacidade das empresas de organizar dados e estruturar processos.
“A IA precisa de combustível. E esse combustível são dados.”
Empresas que já possuem sistemas organizados, como CRM, ERP e BI, saem na frente, pois conseguem integrar a inteligência artificial com mais rapidez.
O futuro: menos execução, mais pensamento
A principal transformação trazida pela IA é a mudança no perfil do trabalho dentro das empresas.
Se antes o foco estava na execução, agora a tendência é valorizar cada vez mais a capacidade analítica e estratégica.
“A gente tem muita gente fazendo. O que vamos precisar é de mais gente pensando”, conclui o especialista.
Na prática, o que muda
A adoção da inteligência artificial nas empresas não deve ser tratada como um projeto isolado, mas como uma mudança profunda na forma de operar.
Mais do que implementar ferramentas, será necessário:
- Revisar processos
- Organizar dados
- Capacitar equipes
- Desenvolver um novo modelo mental
Empresas que conseguirem fazer essa transição tendem a ganhar eficiência, competitividade e capacidade de inovação em um cenário cada vez mais orientado por dados.